Monday, November 15, 2010

Blogueira Convidada

A Blogueira Convidada dessa semana é a Claudia Storvik do blog Filhos Bilíngues.

A Cláudia é advogada formada pela Universidade Federal do Paraná, com Mestrado (LLM) em Direito Marítimo pela University College London. Trabalha para uma grande seguradora marítima norueguesa, onde edita uma revista especializada em direito e seguro marítimo. Casada com um norueguês e apaixonada por linguística, Cláudia, que já morou nos Estados Unidos, Noruega e há 12 anos vive na Inglaterra, fala português, inglês, norueguês, francês e espanhol. Tem uma filha de 12 anos que fala português, inglês, norueguês e atualmente estuda francês e mandarim. Seu blog filhos-bilingues.blogspot.com discute estratégias práticas para a educação de crianças bilíngues.

"Filhos bilíngues, Famílias felizes by Claudia Storvik

Para começar, gostaria de agradecer à Paula pelo convite para escrever pro NYWITH KIDS. Sou blogueira novata, mas no processo de criação do meu blog descobri que existe sim uma coisa chamada blogosfera, e principalmente uma blogosfera materna, como a Paula diz. Estou adorando fazer parte dela. No meu blog, eu conto sobre a minha experiência criando uma filha trilíngue na Inglaterra e tento passar informações úteis a brasileiros que moram no exterior e estão tentando ensinar várias línguas, especialmente português, a seus filhos.

Minha casa é uma verdadeira Torre de Babel. Eu sou brasileira, meu marido é norueguês e moramos na Inglaterra, onde nossa filha nasceu e sempre viveu. Português, norueguês e inglês são usados em diferentes situações na nossa rotina familiar diariamente. Eu e minha filha falamos as três línguas, meu marido apenas inglês e norueguês.  Como em tantas outras famílias em que os pais têm idiomas maternos diferentes e vivem num país onde uma terceira língua é falada, a definição do sistema linguístico doméstico, ou seja, a decisão de que línguas vão ser faladas em casa, pode depender de fatores existentes antes do nascimento dos filhos, para os quais o casal não dá muita atenção até o momento em que percebe que um sistema alternativo seria melhor para desenvolver o bilinguismo (ou trilinguismo) dos rebentos.

Por exemplo, quando um casal multilíngue se acostuma a falar entre si em determinada língua, eles podem ter grande dificuldade para mudar este costume caso decidam mais tarde que há maiores benefícios para os filhos se eles falarem entre si em outro idioma. Especialistas dizem que é extremamente difícil mudar a língua (ou línguas) em que nos comunicamos com alguém uma vez que o hábito é formado. O idioma usado se torna uma definição do relacionamento. Mudar o idioma é como uma negação do passado. Quanto mais profundo o relacionamento, mais difícil é mudar, e muitos casais acham essa mudança impossível. Em teoria não existe nada que impeça essa mudança, mas na prática parece que isso simplesmente não acontece. Também é por isso que se diz que qualquer tentativa de criar filhos bilíngues que envolva uma mudança do idioma usado pelos pais para se comunicar entre si está fadada ao fracasso.

Quando conheci meu marido eu tinha acabado de me mudar para a Noruega e não falava norueguês. Nossa comunicação se dava em inglês, a única língua que tínhamos em comum. Mais tarde aprendi a falar norueguês, mas continuamos nos comunicando em inglês, apesar de durante um período após o nascimento de nossa filha termos conscientemente tentado mudar para norueguês. Por incrível que pareça, a tentativa fracassou principalmente (embora não unicamente) porque meu marido não conseguia usar norueguês de forma natural e expontânea em sua comunicação comigo e tinha que ser constantemente lembrado do que estávamos tentando fazer. Decidimos então intercalar as duas línguas, usando norueguês de tempos em tempos para expor nossa filha ao idioma, mas a língua natural de nosso relacionamento continuou sendo inglês.

De acordo com um especialista em comunicação que conhecemos em um seminário há alguns anos, esse fracasso em mudar o idioma usado entre nós foi um fato positivo para o nosso relacionamento. Segundo ele, eu e meu marido estamos em uma situação de igualdade, pois ambos usamos uma segunda língua para nos comunicarmos um com o outro. Se tivéssemos conseguido mudar para norueguês meu marido estaria em vantagem, porque a comunicação se daria em sua língua materna, enquanto eu estaria usando uma língua da qual não sou falante nativa. Será?

Quanto à relação com a minha filha, nunca tive a menor tentação de falar com ela em outra língua que não fosse o português. Embora a gente fale em norueguês e inglês quando está com outras pessoas que falam esses idiomas, entre nós duas sempre usamos única e exclusivmente português. Sou o típico exemplo de “você pode tirar a garota do Brasil mas não pode tirar o Brasil da garota”. Amo o Brasil e a língua portuguesa de paixão e não poderia deixar de usá-la para me comunicar com minha única filha. Como dizia Fernando Pessoa, a minha pátria é a língua portuguesa.

Depois de alguns acidentes de percurso, hoje a rotina linguística da nosa família é a seguinte:

Todos juntos: falamos principalmente inglês, e às vezes norueguês
Meu marido e minha filha: falam principlamente inglês, às vezes norueguês
Meu marido e eu: falamos inglês
Minha filha e eu: falamos português

Com esse arranjo minha filha se tornou totalmente bilíngue em português e inglês, tanto falados quanto escritos, e muito competente em norueguês. Nunca forçamos nada, deixamos que as coisas acontecessem sempre da forma mais natural possível.

Como tantas outras escolhas que pais precisam fazer em relação a seus filhos, dar-lhes ou não uma educação bilíngue (ou trilíngue) é uma decisão importantíssima, que tem que ser ponderada e apoiada tanto pelo pai quanto pela mãe. A atitude de cada um dos pais em relação à sua própria língua, à língua do outro e à educação multilíngue em si é muito mais importante que a situação objetiva da família com relação às línguas.

Em alguns casos, criar filhos bilíngues é uma tarefa agrádavel e natural, enquanto que em outros é bem mais difícil. No entanto, se a educação multilíngue for uma prioridade para a família como um todo, a empreitada vai provavelmente ser um sucesso. Acima de tudo, filhos bilíngues devem ser fruto de famílias felizes."


6 comments:

Carla Cavellucci Landi said...

Claudia, adorei seu texto!
Foi esclarecedora a parte da relacao do idioma x relacionamento e mudanca de habitos. Fez com que eu entendesse pq meu filho mais velho reluta tanto quando falamos em ingles com ele, na tentativa de "treinarmos o idioma" (somos todos brasileiros, mas morando nos EUA - meus filhos sao fluentes em ingles e eu e meu marido queremos ganhar a mesma fluencia).
Excelente artigo! Sucesso!
Paula, parabens pela escola da convidada!

Dani said...

Ótimo texto.

Meu marido é fluente em Inglês e eu, nem tanto. Ele sempre tenta falar inglês comigo aqui em casa para que eu possa treinar, mas eu resisto... Por que será?

Bjos

Anjinho said...

Adorei a matéria.;
bjokas!

Barbara said...

Meu pai é italiano e minha mae brasileira, nasci no Brasil e sempre tive contato com as duas linguas. Hoje moro na Italia e meu noivo é italiano, ele fala muito bem portugues, mas a nossa lingua é o italiano.
Desejo muito que meus futuros filhos falem tanto o portugues quanto o italiano, mas ja me deparei com muitas pessoas que me disseram que é muito para uma criança aprender 2 ou 3 linguas ao mesmo tempo.
Esse artigo me fez pensar que talvez nao seja somente um sonho, mas que eu possa conseguir.

Claudia said...

Cheguei aqui para ler esse por recomendação de uma amiga e adorei a conversa.

Eu acho que sou um grande exemplo de tudo o que a Cláudia escreveu. Também me chamo Cláudia, também sou casada com um noruguês e também crio crianças trilingues já indo para a quarta língua, o espanhol.

Mas diferentemente da Cláudia eu vivo na Noruega e quando conheci meu marido ele estava trabalhando no Brasil mas fala português mal pacas e nosso relacionamento ficou todo em inglês. Vivemos na Noruega e as crianças de 10 e 11 falam norueguês, português e inglês fluente. O inglês é a língua que falamos mas também é a língua da escola pois eles vão para uma escola britânica. Só brincam em norueguês que é a principal língua aqui em casa, a língua do país, mas não comigo. Eles falam com o pai em norueguês, com sotaque localm falam como noruegueses, apesar de nascidos no Brasil e o português é comigo, é minha bandeira e meu direito. Ou seja, não abro mão de falar português de jeito nenhum, é o meu conforto pessoal e é importante p/ mim diante do fato de estar fora de casa há tantos anos.

Eu falo norueguês fluente mas a língua que eu e meu marido falamos é inglês, por hábito, por história e porque eu não dou todo o poder para ele não! Eu amo meu marido, vivo aqui, falo norueguês mas exijo que ele fale português comigo, e ele se esforça para falar português e enquanto o português dele não segurar uma conversa séria eu não falo norueguês. Nossa relação começou no Brasil e por isso ela curte falar português mas é difícil para ele estando aqui.

Enfim, o amor é lindo em todas as línguas mas a relação de forças típica entre homem e mulher continua e nos momentos de tensão é a minha língua ou o inglês que me protegem. O que ajuda é que ele entende tudo em português mas na hora dele falar se embola...

Enfim, concordo com tudo o que a Cláudia e em relação comentário da Bárbara eu diria que crianças não tem problema algum para aprender 3 ou 4 línguas, nós adultos é que temos, eventualmente elas podem levar mais tempo para escrever corretamente e para ler com desenvoltura em todas as línguas, mas quando deslancham a coisa vai sem problemas. Eu sei pois aqui em casa as fichas das línguas escritas caiu um pouquinho devagar mas aos poucos elas foram encaixando e tudo fez sentido para eles...

Abraços,

Cláudia

nathalia said...

Excelente post! Nós também somos uma família trilingue e eu e meu marido, desde que nos conhecemos, conversamos cada um na sua língua. Ele fala espanhol e eu respondo em português. É mais fácil porque são parecidas. Apesar de sermos fluentes nas duas línguas, até hoje, depois de 11 anos juntos, ainda aprendemos palavras e expressões novas. O Tomas ainda não fala e estou ansiosa pelo que vai acontecer com o vocabulário dele.
Beijos, Paula. Claudia, adorei o seu blog, aprendi muito com você.

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