Tuesday, July 27, 2010

Blogueira Convidada

A Blogueira Convidada dessa semana é minha amiga/companheira de playdates Fernanda Amaral do blog "Os Novos Yorkinos".

A Fe passou por uma experiência muito interessante que foi voltar de "mala e cuia" para o Brasil, não se readaptar e decidir voltar "de mala e cuia" para NY de novo.

Aqui vai a estória nas próprias palavras da Fernanda.

"Uma Estranha no Ninho by Fernanda Amaral

Acho que todo brasileiro que mora aqui em NY (ou em qualquer outro canto do planeta), já teve que responder essa pergunta: “mas você volta?” e hoje em dia sem pestanejar eu respondo: “Não! Já voltei e não deu certo”.

Claro que cada experiência é individual e talvez se eu voltasse de novo, em outras circunstâncias de vida, eu tivesse outra impressão, mas tenho que admitir que voltar foi tão dificil (se não mais) quanto ter vindo, pela primeira vez, há quase dez anos, sem falar a língua, sem poder trabalhar, deixando para trás meu emprego, meus amigos e família e a cidade em que nasci e cresci. Voltar para seu país e ver que você não pertence por inteiro e que muitas vezes você não se sente em casa, foi muito, muito estranho, amendontrador e triste.

E não é que quando cheguei aqui, estava achando mil maravilhas não, como disse Caetano ‘narciso acha feio o que não é espelho’: eu chorava todos os dias por 6 meses. Chorava no meio da rua porque não conseguia entender nada; chorava dentro de casa porque queria ver minhas amigas ou xingava os quatro ventos por causa daquele maldito frio (dica #1: NUNCA mude para NY em janeiro). Mas aí o tempo foi passando, a cidade vai se enraizando dentro de você, voce vai curtindo tudo o que uma cultura diferente tem para te oferecer e eu era a “mais nova paulistana a curtir NY numa boa”. Fui fazer uma pós graduação; fiz amizade no parque de cachorros da minha vizinhança, curtia ‘Friends’ as quintas-feiras e nao tinha a mínima saudade das novelas da Globo; fiquei grávida, tive meu primeiro filho (de parto normal) e já me sentia como qualquer outra New Yorker, reclamando dos turistas em Times Square, ou daqueles que não sabem passar o metrocard na catraca do metrô.

Aí deu o “saracutico dos 5 anos”, como diz meu marido. Chega aquela hora que você começa a pensar que foi tudo muito bom, mas como criar o seu filho longe dos avós, dos primos, dos filhos dos seus amigos? Então ele foi convidado pra trabalhar em São Paulo, voltamos de mala e cuia em 2 meses, ele feliz da vida e eu esperançosa, mas meio pé atrás. E não rolou. Muitos foram os fatores, no meu caso:

Erro #1: compramos um apartamento (ao invés de alugar) e enquanto reformamos, ficamos nos meus sogros por quase 6 meses. For the record, eu amo meus sogros, como se fossem meus pais, nos damos SUPER bem, mas ir de um extremo de morar em outro hemisfério para estar na CASA dos caras com bebê de 8 meses?  Preciso dizer mais?

Erro #2: achar que iríamos voltar para nossa vida de 5 anos atrás (não conscientemente é claro), mas tínhamos aquela ilusão de que íamos fazer churrasco todo final de semana, sair pra dançar no meio da semana, ou ligar no final da tarde pra qualquer amigo e fazer algo espontâneo, como bate-volta na praia. HELLO?? A vida de TODOS nós mudou: todo mundo cresceu, casou, teve filho, todo mundo tocou a vida, mesmo que não estivessemos aqui para acompanhar de perto o processo. Nossa volta também foi um pouco de luto da nossa vida de solteiros.

Erro#3: quando estamos longe o Brasil é super idealizado, tudo lá era uma delicia, a comida, todo mundo visitando, etc. Quando você volta (pelo menos pra São Paulo),  você passa 1/3 do seu dia no trânsito, com medo de ser assaltado, quando chove ou tá frio não tem muitas opções pra levar seu filho, a não ser no shopping e o seu diploma da Columbia não adiantou de nada na hora de conseguir trabalho, já que ninguém mais te conhecia na área. OU seja: passar férias no Brasil não é a mesma coisa de que morar no Brasil (duh!).

Muito provavelmente se o meu marido não tivesse topado ser transferido de volta pro banco aqui em NY, nós tivéssemos nos readaptado, como muita gente que volta e adora ter voltado; iríamos curtir ter mais ajuda; eu ia amar depilação e manicure baratinhas ou talvez tivéssemos nos separado (ha!), who knows! Mas o que ficou disso para mim são duas certezas: nada é para sempre ou definitivo mesmo, e eu nunca mais vou me sentir 100% pertecendo a um lugar. Hoje em dia estou de bem com o fato de que eu sempre serei um pouco entrangeira no próprio ninho, tanto aqui quanto lá. "

19 comments:

Monica Mello said...

Aaaaaahh que confortável ler esse texto, nos sentimos um pouco mais normais, menos problemáticos. sua última frase reflete exatamente o que sinto em relaçao a esse sentimento tão dificil de administrar, a saudade e a realidade do Brasil. Só preciso ainda me sentir bem com ele, como voce já se sente!

Nanci said...

Nossa que legal vc compartilhar a sua experiencia aqui com a gente do mundo virtual. Eu ja moro fora do Brasil a mais de dez anos e fico sempre pensando se algum dia vou voltar. Nao que sinta falta da minha vida la, pois a minha vida é aqui, sinto isso. Mas a vida as vezes nos pega cada peça. Nao me sinto 100% brasileira nem 100% britanica, sei la é muito estranho, sinto que tb nao pertenço a lugar nenhum.
Abraços

Fernanda said...

Paula, obrigadissima pelo convite! Estou adorando a oportunidade de poder dividir minha experiencia e fazer com que outras "estranhas no ninho" se sintam mais normais, como a Monica falou ou saber que nao estou sozinha.

Beijos querida!

Fernanda said...

Nossa, acabei de receber o email com este artigo e a situação é tão parecida que até o nosso nome é o mesmo... rsss
Tem 2 meses que estou de volta ao Brasil e em Sao Paulo pois meu marido recebeu uma proposta para trabalhar aqui de novo... ainda nao temos filhos, mas da mesma maneira ainda estou sofrendo e muito com toda a readaptação.... é muito dificil e ainda tenho fé que iremos voltar a NY, pois de fato, me apaixonei pela cidade e hj aqui perto de tudo e de todos e dentro do meu proprio pais, me sinto mais estranha no ninho do que quando cheguei ai....
beijos,
Fernanda

Renata Gomide said...

Muito bom ouvir sua estoria, Fernanda. Estou em NY há 7 anos e sei que se um dia voltar ao Brasil sera meio que um choque ver q nossa vidinha de anos atras nao esta mais la, apesar de ter todos por perto. É um sentimento bem estranho mesmo e a dúvida me persegue todos os dias. Só sei que hoje minha vida ta aqui, com meu marido e que onde quer q a gente acabe, ele é minha familia e estara comigo, fazendo nossa historia. A saudade a gente vai administrando com viagens, internet e telefone, fazer o que ne?

Patricia said...

Adorei ler, e engraçado saí da minha cidade para outra em outro estado comecei odiando tudo, depois morri de amores, e agora dá um medo de voltar para aquela que é nosso sonho!!!
Más também acho que sempre temos saudades dos lugares porque somos felizes, e momentos felizes sempre nos darão saudades.

Patricia said...

Ah, quando puder, da uma passadinha no meu blog. Nessa semana em especial, desenvolvi um modelo de porta lápis muito fofo para crianças. Bj ( www.patipins.blogspot.com )

Viajando com Pimpolhos said...

Muito interessante este post e bem transmitido! Os sentimentos de quem sai, volta, etc, são exatamente esses! No meu caso, é um pouco diferente, vim da França, passei 10 anos no Brasil, voltei para Paris para uma super proposta de trabalho e não aguentei, acabei voltando! (vão me chamar de louca!). Ms os sentimentos são esses: muito estranho vc se sentir um estrangeiro em seu país, no caso, a França! E aí, o mesmo sentimento que vcs têm c/ o Brasil, adoram vir de férias, gostam de longe, de um país idealizado, eu tenho com a França! Adooooro ir de férias! Morar, é mais difícil!
Sentimentos de expatriados...no meu caso, me sinto cidadã do mundo!
Bjs e parabéns à Convidada e à Anfitriã!
Sut-Mie

Paty said...

Paula, obrigada por abrir espaco em seu blog para experiencias diversas como esta da Fernanda. Conheco muitas pessoas que levaram muito tempo para se adaptar, nao e tao facil como pensam!

Fe, obrigada por dividir sua historia, e bom saber que nao estamos sozinhas e nao somos peixe fora dagua!

bjs as duas

flavia fiorillo said...

Oi Fernanda e Paula,
Eu morei 20 anos em NY e voltei porque tinhamos sérias dúvidas quanto à educação americana em termos de filosofia e qualidade. É bem verdade que quem mora fora nunca mais vai ser feliz em lugar algum, mas apesar de não conseguir trabalho pelos mesmos motivos que a Fernanda, estamos bem e as crias amam estar perto da familia, do espaço do clube e nothing beats the weather here. Temos planos para sair novamente do pais quando eles estiverem um pouco mais crescidos e com interesses definidos.
Gostei muito do blog, que conheci pelo da Pati. Vou colocar no meu blogroll, ok?
se der um tempinho, passem no meu para uma visita.

beijo
flavia
http://mamaesabetudo.blogspot.com/

Camila said...

Fernanda,
Obrigada por compartilhar sua estoria. Para mim, em particular, foi muito interessante na parte que vc descreve que nao se adaptou ao voltar para o Brasil, pois quero voltar e tinha meio a ideia de que seria facil, a qualquer tempo, por ser a minha homeland. Suas palavras e a forma como colocou as situacoes me emocionaram e, com certeza, vao me fazer refletir melhor.
Um grande beijo,
Camila

Coisas de mãe said...

Adorei o post, muito legal e bem resolvido. ADoro esta sensação, de estar de bem, sabendo pros e contras e fazendo a escolha. Morei em NY 1 ano e meio. Foi ótimo. E convivi com muita gente que tava chegando ou partindo (esta é a a historia da cidade não?). Não me arependo de ter voltado mas de vez enquando me pego pensando como seria se tivesse ficado (mais).

As crianças são lindas!

beijos

Pati

http://coisasdemae.wordpress.com

Rafaela said...

Fe!!!!
vou passar o link para o meu marido ler!
ele ainda sonha com "a triunfante volta" e isso aconteceu exatamente quando ele completou 5 anos de NY!!!
pra mim, nao teve isso ainda, pois mal esquentei o bumbum em NY, ja me mudei...de novo...
para sempre seremos estrangeiras, sjá lá ou seja aqui...


bjs


Rafa

Mariana said...

Adorei o post. Me senti assim quando voltei de "férias" pro Brasil, na época que eu morava em Londres. por pouco não adiantei minha passagem de volta pra Inglaterra... Depois, quando voltei pra valer, foi bem mais fácil, acho que porque, na minha cabeça, meu período de morar fora do país realmente já tinha chegado ao fim. Daí, foi mais tranquilo.
Beijos pras duas!

Gabriela Gomez said...

Muito bom esse post, sou gaúcha e moro em SP...estou sempre tentando convecer meu marido a voltar, pela falta que sinto de lá.
E ele sempre me diz que que tenhos sonhos que o tempo não passou e que as coisas e pessoas continuam igual, mas na realidade tudo mudou...com esse post vi que realmente ele tem razão.
Vou me aquetar e deixar de encher o saco dele...hihihi.
Obrigada pela leitura, foi reconfortate!
Bj

Carol P said...

Fernanda, Adorei seu relato, sempre gosto se saber como as pessoas reagem ao voltar ao Brasil, coisa que para nos pode acontecer ou nao. Pois acho que vai chegar a hora que vamos dizer, basta de volta pra casa.
Esses meses no Brasil serviram para mostrar o que realmente nao funciona por aqui, e tem que ser acertado em caso de volta, e por outro lado, vi que sim dah para se acostumar. Mas como eh dificl ficar longe das coisas boas que a Europa proporciona como liberdade,etc. O que realmente pesa eh a familia, apesar de saber que agora temos a nossa familia.
Acho uma decisao tao complicada...
Mas vc sabe que nao tenho ilusoes a respeito de voltar para o Brasil ou outros paises que morei, e achar que vai ser igual,que nada mudou, e olha que custei para entender isso, mas afinal captei a ideia.
Bj

Fernanda said...

Meninas, obrigada pelo feedback. Fico feliz que o meu relato tenha ajudado vcs a pensarem (e repensarem) sobre a tal da volta. Beijos a todas!

FLAVIA STINGELIN said...

Fernanda e Paula, obrigada pelo texto.
Eu cheguei no Brasil ha 1 semana e me identifiquei com o texto, muito muito... tambem vou repassar para o Tobias ler. saih de NY com o pedido pra Deus de poder voltar um dia, mas agora eu sei que tenho que fazer dar certo aqui, ja que para os meus filhos serem felizes, por enquanto, eu preciso estar feliz, entao preciso me adaptar. mas quero muito dar a eles a oportunidade de se lembrarem quao maravilhosa eh a oportunidade de viver em NY com todas as dificuldades e desafios que a gente conhece.

Carolina Cunha said...

Esse post veio em boa hora, já moro ha dois anos em San Francisco e agora estou gravida de 6 meses e tudo começou a dar medo, tipo como vamos educar nosso filho sozinhos, baba aqui nao e facil e as nossas saidinhas? e quando quisermos viajar? sao muitas duvidas, mas em contrapartida fui de ferias agora para o Rio e fiquei super paranoica com a violencia, sem contar o transito louco ... ainda nao temos certeza de nada, mas pelo menos a sua historia me faz pensar que voltar nao e necessariamente a solucao ... thanks!

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